Escravos, canibais, blacks e DJs: sonoridades e identidades juvenis negras no Brasil (in Tribos urbanas: produção artística e identidades, José Machado Pais e Leila Blass (coord.), ICS, 2004, p. 161-184)


Este texto sobre as sonoridades e identidades juvenis negras no Brasil apresenta-se em duas partes. Uma de exploração teórica – os dois primeiros capítulos – em torno dos enunciados de Simon Frith, onde a relação com a música no sentido lato (composição, interpretação e audição) é ritualizadora da identidade ou do «processo de identificação», conceito esse formulado por René Gallissot. Um processo que se traduz na escolha individual das referências que se pretende activar, sujeita a uma lógica cultural estipulada a partir de um «fora» e que en- viesa a total modularidade identitária. Serão também convocados outros autores, entre os quais Arjun Appadurai, Jacques Attali, Zygmunt Bauman, Iain Chambers e Paul Gilroy, que nos ajudarão a entender os mecanismos sociais de catalogação das sonoridades – equacionadas aqui enquanto espaços referenciais –, umas válidas, outras não, pelas suas funções congregadoras, respectivamente, do consenso e do conflito sociais.
A outra parte – do terceiro ao último capítulo – propõe uma análise de conteúdo a vários documentos bibliográficos sobre os temas «música brasileira», «cultura juvenil negra» e «identidade juvenil negra», cruzando-a com as teias teóricas articuladas anteriormente. O todo forma um estudo prospectivo – que visa definir os contornos de problemáticas sociológicas – sobre a relação entre a música e a identidade dos jovens negros brasileiros. A formulação do conceito «jovens negros brasileiros» baseia-se noutro – «jovens negros portugueses» – investido e operacionalizado numa pesquisa anterior. Este último visava definir os contornos identitários dos filhos de imigrantes dos PALOP (países africanos de língua oficial portuguesa) residentes em Portugal por um processo de identificação que tinha nas referências musicais consumidas o seu ponto, simultaneamente, centrípeto e centrífugo. Neste sentido, com este trabalho procura-se agora balizar os possíveis contornos e limites do conceito «jovens negros brasileiros». Jovens, pela activação de referências delimitando uma «comunidade de consumidores» ageográfica mas proeminentemente jovem. Negros, porque está em questão a relevância das referências a uma certa África mítica, das «raízes», através de um ritmo e de certos sons constitutivos dos espaços de referência à africanidade e à negritude. Brasileiros, pela demarcação de um espaço referencial particular – a brasilidade – que é também, como iremos ver, um território imaginário de recontextualização das referências globais em órbita.

Texto na íntegra aqui