"O meu primeiro contacto com o rap teve Iugar em Nova Iorque na última noite de 1983, na festa de passagem do ano do Roxy, então Iugar de eleção da cena hip hop. Programa completo. Parada de limousines à porta. Todas as pessoas revistadas à entrada para evitar facas e pistolas que se iam amontoando a um canto. Tudo como nos filmes. D] Afrika Bambaataa e Dj Jazzie Jay entre os muitos nomes anunciados. Artistas de graffiti, como Futura 2000 e Zephyr, durante toda a noite, decoraram as paredes. Perguntei a .um “breaker” de 14 anos, muito espectacular, como é que tinha começado com aquilo. Explicou que tinha visto Michael Jackson na televisão e decidira começar a dançar. Desceu à rua e viu os outros miúdos a fazer coisas que ele não era capaz de fazer. Meteu-se em casa a treinar e quando voltou a sair à rua já fazia tão bem ou melhor do que eles. Pela mesma altura um filme como Wild Style, reunindo Fab Five Freddy, Lady Pink, Grandmaster Flash e a Rock Steady Crew, colocava - a propósito da carreira de um pintor de graffiti a quem é oferecida uma oportunidade numa galeria comercial - a questão da possibilidade e do significado da integração dos artistas de rua nos circuitos normais de produção e distribuição artística. Dias depois, na Fun Gallery, uma galeria dirigida por Patti Astor, onde Fred Brathwaite - o outro nome de Fab Five Freddy - expunha uma série de telas pintadas a graffiti inspiradas em imagens de Lichtenstein, assisto a uma discussao entre o autor e uma equipa de vídeo francesa que não lhe quer pagar os cem dólares que ele exige para conceder uma entrevista. Mais tarde, em conversa com Rudolph, que era então um dos grandes patrões da noite nova-iorquina, este diz-me não acreditar que a cena hip hop possa ter um grande futuro. “É demasiado étnico para ter êxito nos Estados Unidos.” Pelos vistos, Rudolph não tinha razão. Fab Five Freddy tornou-se uma vedeta da MTV, depois desta estação se ter recusado, durante muitos anos, a divulgar rap. Assim sendo, o triunfo da cultura hip hop mostra-nos duas coisas: já não existe uma contradição insanável - embora continue, provavelmente, a existir uma contradição - entre a afirmação de uma forma cultural específica e a sua difusão massiva à escala global: o multiculturalismo não é apenas um chavão teórico mas a expressão de uma efectiva e crescente pluralidade cultural. Nesta medida, a afirmação multiculturalista é talvez o mais substancial resultado da dinâmica pós-moderna e assinala um momento fundamental na ruptura com o etnocentrismo da tradição cutural ocidental. Mas a cultura hip hop mostra-nos ainda, seguramente, muito mais coisas. Para saber quais, dispomos agora deste livro, cuja produção eu tive o gosto de ir acompanhando desde o momento em que António Contador e Emanuel Ferreira me propuseram o rap como tema para um trabalho no âmbito da cadeira de Sociologia da Cultura no ISCTE (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa) até ao momento em que acabo de escrever este prefácio. A partir de agora o livro está no lugar onde deve estar: na rua." Alexandre Melo

O livro na íntegra aqui

Fotos: Patrícia Almeida